Não mude as pessoas, mude a organização

A auto organização pode ser uma grande tendência. Profissionais criando suas redes de prestadores de serviços, freelancers atuando em conjunto, espaços de co-working, comunidades de desenvolvedores e tantas iniciativas fantásticas que aparecem e desaparecem todos os dias, poderia ocupar muito do seu tempo e paciência somente citando casos por aqui.

Mas, graças a Deus, não é essa a minha intenção, prefiro ir um pouco mais além e abordar esse assunto pela ótica dos Bens Comuns.

Primeiro definindo que, para nós, bem comum é tudo aquilo que pode ser considerado “de todo mundo” e na hora do vamos ver não é “de ninguém”. Aquela casa na praia da família onde todos aproveitam e ninguém cuida até que ela esteja um lixo. A cafeteria da empresa que sempre está suja, mal conservada e ninguém, cuja a xícara de café esteja usada, sabe quem a deixou daquele jeito.

A auto organização esbarra no dilema dos bens comuns e, por não estarmos suficientemente maduros para entendê-la e suportá-la, descamba para a hierarquia absolutista ou para o fim de tudo.

Isso porque o mundo de hoje ainda se apoia em regras antigas. Imóveis são alugados para empresas ou pessoas, transações comerciais e financeiras precisam de documentos contábeis de uma pessoa jurídica. Enfim, a necessidade de um responsável conduz a auto organização a uma reflexão sobre o risco. Se alguém é responsável por aquele negócio, essa pessoa ou empresa deve ter a última palavra simplesmente por ser quem corre o maior risco, e daí nascem os problemas.

As soluções para esse dilema são sempre as mesmas, trocam-se os participantes daquela auto organização por gente que aceita o retrocesso ou acaba-se com tudo e pronto.

Mas será que essa é a única alternativa?

Segundo Elinor Ostrom, para o que ela chama de “Dilema dos Comuns”, haviam antes duas alternativas, a privatização do bem e su a entrega para uma empresa explorar, ou a regulamentação governamental. Ou seja, escolhe-se a ditadura empresarial ou a pública. A primeira regida pelos retornos comeciais e a outra seja lá por que critério a gestão do momento deseja seguir.

A Dra. Ostrom defende que, com um conjunto de regras claras que permitam a auto-regulação, a auto-organização é uma opção viável, senão recomedável. Mas como fazemos para, num mundo hierarquico, nos auto-organizarmos, existiria uma figura que pudesse, ao mesmo tempo, cumprir o papel de responsável sem necessariamente se tornar o “dono da bola”?

Em um longo processo de reestruturação de um condomínio conseguimos, apenas adequando o papel do síndico, transformar um grupo de condôminos que nunca se acertava, numa organização coesa e pró-ativa que, há 10 anos sem reajustar as contribuições dos moradores, realiza reformas importantes no prédio e tem dinheiro sobrando em caixa.

O que fizemos?

Simples, contratamos um síndico para representar o condomínio perante o governo, justiça, fornecedores e bancos, com poderes para cumprir qualquer decisão da comissão de condôminos, porém sem autonomia para decidir o que fazer. Ao retirarmos o risco das costas de um único condômino e distribuindo-o para o grupo, conseguimos que todos cooperassem para a melhoria dos serviços. Dando poderes a um terceiro contratado conseguimos que as regras definidas fossem aplicadas a todos igualmente. Ao criar uma comissão permitimos que os regulamentos atendessem o coletivo e não ao individual.

Seria então possível fazer isso comercialmente?

Claro, há regras como Sociedades em Cota de Participação, Condomínios e outras formas que um bom advogado e um bom contador podem montar e controlar dentro da lei. Só é preciso uma boa dose de vontade e nunca se desviar do principio geral, o que é de todo mundo, deve atender e ser cuidado por todo mundo.

– Direto do iPad via BlogPress

Escrito por

Carl é um engenheiro de negócios com 25 anos de experiência na gestão de empresas e projetos de vários tamanhos para grupos privados e governos. Há 6 anos começou a criar e articular redes sociais começando com a Rede da Engenharia até o Projeto TEIA MG de massificação de uso da Web do Governo de Minas. Pós-graduado em Marketing pela ESPM, MBA em Finanças pelo IBMEC e mestrado em Administração pelo Mackenzie. Apaixonado pelas filhas Amanda e Stella, está sempre com elas passeando na ciclofaixa, assistindo um filme de sua coleção, ou no Twitter, Facebook, Skype entre outras ferramentas que ensinou as duas a usar.

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